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Luís
Fernando Guedes Pinto
Suponho
que o cidadão comum tenha grande dificuldade para fazer uma avaliação da
agropecuária nacional. De um lado, um gigante do PIB brasileiro, o setor de
maior importância para o saldo das exportações e um dos grandes empregadores da
força de trabalho nacional. Em suas terras está a maior porção das florestas
brasileiras, sua produtividade não para de aumentar e é líder mundial em tecnologia
de produção agrícola dos trópicos. Por outro lado, é um dos principais
responsáveis pelo desmatamento e pelas emissões de gases de efeito estufa e o
maior consumidor mundial de agrotóxicos. Na dimensão social, no campo, ainda
está a maior parte dos casos de trabalho forçado e precário. 
Afinal
de contas, que setor é esse? É tudo isso ao mesmo tempo. A agropecuária
nacional é altamente heterogênea e o arcaico e o moderno convivem lado a lado.
Temos ótimos exemplos de adoção de boas práticas agronômicas, ambientais e
sociais. Como consequência, somos líderes na certificação de sustentabilidade
em diversos cultivos e produtos. Mas isso não é o dominante, como também não
são os casos reais das piores condições sociais e ambientais divulgadas
frequentemente pela imprensa. 
Apesar
da grande heterogeneidade, é possível apontar algumas tendências e áreas de
mudanças para a busca pela sustentabilidade do setor, seja por necessidade ou
oportunidade. O mercado e a sociedade exigem qualidade, rastreabilidade e segurança
nos alimentos e sustentabilidade na produção. A necessidade de adaptação às
mudanças climáticas, a escassez de água, os cenários de limitação de
fertilizantes e a dependência do uso excessivo e preventivo de agrotóxicos
apontam que a forma de se produzir precisa ser reinventada. As monoculturas e o
eficiente sistema derivado da revolução verde parecem próximos da exaustão,
resultando em altos impactos ambientais e chegando próximo da inviabilidade
econômica. A era do domínio da engenharia parece estar perto do seu esgotamento
e o desafio atual é reaproximar a agronomia da biologia. 
Precisamos
de sistemas produtivos mais estáveis e resilientes, que necessitem de menor uso
de energia e intervenção e possam responder a um ambiente dinâmico e instável. E
a ciência indica que, nos trópicos, isso somente pode ser alcançado pela
diversificação dos sistemas de produção e sua integração com uma paisagem
também naturalmente diversa. Isso para se limitar à produção e à escala de
dentro da porteira. Some-se a isso a importância do setor para o fornecimento
de serviços ambientais essenciais para a coletividade. Além do endosso da
ecologia, a diversificação também proporciona maior estabilidade financeira e
maior renda para o produtor, como demonstrado por um estudo da Secretaria de
Agricultura do Estado de São Paulo. Todavia não temos políticas que incentivem
a diversificação e o mercado e as tecnologias hegemônicas impõem a
simplificação. 
No
campo social, embora tenha aumentado a formalização do trabalho no campo, a
contratação temporária de trabalhadores nas colheitas (muitos deles migrantes),
o pagamento por produtividade, o contato intenso com agrotóxicos e a
terceirização de atividades produtivas são um convite ao trabalho precário e
uma ameaça à saúde e vida desses homens e mulheres. No plano institucional,
temos um sistema de crédito público, mas não uma política agrícola ampla e
integrada. Essa deveria orientar onde, o que e como se produzir; protegendo o
produtor dos enormes riscos da sua atividade e garantindo ao mesmo tempo o
interesse público. Para piorar, não temos um planejamento da infraestrutura e
do nosso imenso e diverso território. E além do conhecido e limitado comando e
controle, nos faltam instrumentos de incentivos a mudanças rumo à sustentabilidade.
Finalmente, a fraqueza do Estado se contrapõe ao poder das indústrias de
insumos, traders e indústrias processadoras e distribuidoras. Essas são muitas
vezes oligopolizadas e, se há dúvidas se estão a serviço do interesse dos
produtores, o que se dizer do interesse público? Sem mencionar a fragilidade do
cooperativismo e a falência da extensão rural. 
Com
uma história que moldou o que hoje é o nosso país, a agropecuária continuará
sendo um dos motores da nossa economia e sociedade. Além dos extremos positivos
e negativos, em média, o setor tem se modernizado e transitado de uma fase do
precário e predatório para a conformidade com leis e regulamentos privados
nacionais e internacionais. Mas os desafios e as necessidades de mudanças rumo
a um patamar que se aproxime da sustentabilidade são substantivos e exigirão
grandes investimentos em pesquisa e tecnologia, mas apoiadas em novos
paradigmas. E isso nos abre a oportunidade de tratar de outros temas relevantes
do setor, que se tornaram tabus e estão escondidos embaixo do tapete desde a
chegada de Cabral e suas caravelas. O alcance dessa utopia somente será
alcançado com um amplo diálogo com a sociedade e a construção de uma nova
aliança de forças, necessariamente conectada com um projeto de longo prazo para
o país. 
LUÍS
FERNANDO GUEDES PINTO,
42, engenheiro agrônomo e doutor em agronomia pela Esalq-USP, gerente de
certificação do Imaflora e integrante da Rede Folha de Empreendedores
Socioambientais, é professor da pós-graduação da Escas - IPÊ e foi pesquisador
associado da Universidade de Oxford. 


Fonte: Folha –
Empreendedor Social

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