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Hoje, Dia
Nacional do Cerrado, faz um ano que cerca de 50 organizações ambientalistas
lançaram um manifesto alertando para a gravidade do desmatamento no bioma e
perda de sua biodiversidade. A carta lembrava que a cada dois meses, no período
de 2013 a 2015, o cerrado perdeu em vegetação nativa o equivalente a área da
cidade de São Paulo. O fato ocorre em razão do avanço da agropecuária,
principalmente, no território do Matopiba, a confluência dos estados do
Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia cujas áreas de cerrado correspondem a 90% do
território, por onde a soja se estende e predomina. Em resposta foi criado um
Grupo de Trabalho com a participação de ONGs, representantes da cadeia soja,
produtores, governo e empresas do varejo com o objetivo de alcançar um pacto em
torno da conservação do cerrado.

Coautor do trabalho “A expansão da agricultura em remanescentes de vegetação nativa do bioma cerrado”, com o economista e mestre
em serviços ecossistêmicos Felipe Barbirato, o engenheiro agrônomo Lisandro
Inakake, coordenador de projetos na área de Clima e Cadeias Agropecuárias do
Imaflora, explica a complexidade da região. 

Radar - Um ano depois de lançado o manifesto, qual sua
avaliação sobre a possibilidade de um acordo para o cerrado, já que a última informação
sobre o bioma aponta para um crescimento de 9% do desmatamento em 2017 em
relação ao ano anterior?
LI – É a única possibilidade com que trabalhamos. O
primeiro passo foi a criação do Grupo de Trabalho do Cerrado, estabelecendo um
espaço para o diálogo em prol da conservação do bioma. Estamos em um momento
crucial da negociação para alcançar um acordo que atenda ao objetivo do Grupo
de Trabalho  que é a “eliminação do
desmatamento o mais breve possível, considerando aspectos ambientais, sociais e
econômicos”. É um Grupo de Trabalho bastante 
representativo, já nasce mais amplo do que o que negociou a moratória da
soja para a Amazônia.
Radar – No entanto, o debate sobre o desmatamento na
região é recente. Por quê?
LI –. Nas últimas décadas, a partir de 2000, mais ou
menos, a gente percebe o avanço da agricultura sobre o cerrado, de forma muito
intensa e o desmatamento atingiu níveis alarmantes, chamando a atenção da
sociedade civil e do mercado internacional. Em minha opinião, enquanto os olhos
do mundo se voltaram para a Amazônia, fez-se vista grossa para o cerrado. O
fato é que surge no território um modelo de negócio estruturado, voltado para a
exportação de commodities, não para a produção de alimentos. Atualmente, o
cerrado tem 17 milhões de hectares de soja, dos quais cerca de 4 milhões estão
no Matopiba e já responde por 10% produção mundial de grãos.
Radar – E quais são os impactos para o bioma?
LI – São inúmeros e ainda há muito a ser mensurado e
qualificado. As alterações climáticas são 
um  ponto muito importante. O
desmatamento no cerrado já atinge 50% do bioma e há sinais de escassez de água
para uso humano e para a manutenção do próprio agronegócio. Das 12 bacias
hidrográficas do Brasil, oito possuem nascentes importantes no cerrado e
abastecem grandes centros.  A correlação
entre a mudança do uso do solo e a disponibilidade dos recursos hídricos está
bem clara. Sem falar nas perdas para a biodiversidade. Um terço da
biodiversidade brasileira, sendo quase 50% de espécies endêmicas, estão no
bioma.
Radar - E quais os riscos sociais que podem ser
apontados?
É importante ressaltar que existem dois negócios nas
fronteiras agrícolas, a atividade agropecuária e a imobiliária.  No Matopiba há grandes grupos, incluindo
fundos de pensão e de investimentos estrangeiros, que adquiriram terras na
região. São casos em que não existe necessariamente a intenção de produzir e
sim de investir com a perspectiva de valorização da terra. Muitas vezes, o
processo de especulação imobiliária é intimamente associado à grilagem de
terras. E isso  provocou e ainda  provoca consequências negativas, como o uso
irresponsável dos recursos naturais, a expulsão das populações tradicionais do
território de ocupação, contaminação de rios com agrotóxicos e outros fatores
derivados desses, como a intoxicação de um rebanho bovino com a água
contaminada, como retratado pelo documentário 
“Geraizeiros” , do diretor Marcos Rogério Beltrão dos Santos.
Radar – Existe um prazo para o acordo no GT, qual
expectativa nesse sentido?
LI - Dezembro é a data limite para se chegar a um acordo
e estamos trabalhando intensamente nesse sentido.

Imaflora

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