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Agenda de Dilma e Merkel para o clima ainda carece de
ambição e passos concretos para se obter acordo em Paris
Quando a chanceler Angela Merkel e a presidente Dilma
Rousseff se reunirem nesta semana em Brasília, as duas estarão tirando férias
do gerenciamento de crises.
Merkel vem de uma votação sobre a crise grega, uma ameaça
existencial para União Europeia e a moeda comum; Dilma poderá fazer uma
bem-vinda pausa nos desafios que tem enfrentado.
Por mais urgentes e preocupantes que estas crises
político-econômicas sejam, em algum tempo elas se tornarão uma memória
distante, tendo em vista outra crise muito maior: a mudança climática.
O clima faz parte da agenda da reunião. A dúvida é o quão
ambicioso será o resultado do encontro.
Os dois países podem alegar algum sucesso no passado no
combate às alterações no clima. O Brasil reduziu as taxas de desmatamento da Amazônia,
o que resultou em uma expressiva queda em suas emissões de carbono. Já a
Alemanha reduziu suas emissões em 24% em relação a 1990, mesmo sob forte
crescimento econômico, e almeja um corte de 40% até 2020.
Além disso, o país também tem contribuído imensamente
para reduzir os custos de energias renováveis, especialmente eólica e solar,
por meio de um esquema pioneiro de incentivo que permitiu que essas tecnologias
alcançassem escalas de economia e eficiências cada vez mais altas, com
repercussão global.
No entanto, as emissões do Brasil de todos os outros
setores fora o desmatamento têm subido de forma constante, e o desmatamento na
Amazônia voltou a subir em 2013. Além disso, a proteção das florestas e da
biodiversidade pode ser ainda mais corroída pelas disposições da Agenda Brasil,
que tem o apoio da presidente.
O setor de energia da Alemanha ainda queima quantidades
significativas de carvão e o governo tem adiado a adoção de políticas para
diminuir gradualmente o uso de combustíveis fósseis.
Os dois países permanecem entre os dez maiores emissores
do mundo.
Obviamente ainda há mais a ser feito, e este encontro,
que ocorre apenas alguns meses antes de uma conferência histórica em dezembro,
é uma oportunidade perfeita para fazê-lo. Então, o que mais esperar dessa
reunião?
AMBIÇÃO
Em primeiro lugar, aumentar a ambição das metas
climáticas. O Brasil ainda não anunciou sua meta para 2025 e 2030, mas o
Observatório do Clima propôs uma meta de, no máximo, 1 bilhão de toneladas de
emissões de carbono e demonstrou como isso pode ser feito. Um elemento dessa
estratégia é zerar o desmatamento antes de 2030.
A presidente Dilma deve declarar sua determinação de
assegurar que os territórios indígenas e outras áreas protegidas permaneçam
fora dos limites da mineração ou da produção agrícola e que estas proteções não
sejam enfraquecidas pelas reformas legislativas, presentes em pontos da Agenda
Brasil.
A Alemanha se comprometeu a uma redução de emissões de
55% como a sua contribuição para a meta global da Europa de "pelo
menos" 40% de redução até 2030.
Merkel pode seguir adiante com sua promessa de aumentar o
apoio financeiro ao desenvolvimento de ações de países, e de incentivar a UE a
elevar suas tímidas metas.
Em segundo lugar, pode-se unir forças para obter um
acordo forte na conferência de Paris. É necessário que os países assumam
compromissos e os entreguem de forma transparente e responsável, com mecanismos
e incentivos para aumentar a ambição a curto e a médio prazo.
Em terceiro lugar, é preciso, de forma pragmática e
urgente, fortalecer e expandir uma série de iniciativas para assegurar a
utilização de tecnologias mais eficientes e sustentáveis, em cooperação com o
setor privado e outros atores relevantes.
Finalmente, talvez o resultado mais importante deste
encontro fosse um reconhecimento de que mitigar a mudança do clima ajuda a
prevenir outras crises.
Os brasileiros já podem sentir como as mudanças
climáticas podem ameaçar o fornecimento de eletricidade e água. As soluções
para nossos desafios energéticos poderiam ser energias renováveis sustentáveis
em vez de investimentos na geração poluente via combustível fóssil ou inúmeros
novos grandes projetos de hidrelétricas na região amazônica.
No Brasil, investimentos em infraestrutura e economia
podem se basear na suposição de que vamos extrair e queimar até a última gota
de combustíveis fósseis, sem ligar para as consequências climáticas, ou uma
transição racional e justa para uma economia sustentável com base nas
tecnologias do futuro.

MARK LUTES, especialista em mudanças climáticas, integra
a rede de ONGs o Observatório do Clima.

Fonte: Folha de São Paulo




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