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As características inéditas da iniciativa  foram tema de uma longa conversa entre o
economista Ricardo Abramovay, referência em sociologia econômica e Patrícia
Cota Gomes, engenheira florestal, que trabalha há 15 anos com instrumentos de
valorização da produção extrativista.
Ricardo Abramovay - Colocar populações tradicionais em
contato com o mercado tem sido, na idade moderna, um fator de muita
destruição.  Por que é que nesse caso
você acha que vai ser diferente?
Patrícia Cota Gomes – A diferença é que nesse caso, o
chamado veio das próprias populações tradicionais. Um dos desafios que estes
povos enfrentam é encontrar uma forma de permanecerem em seus territórios,
vivendo na floresta e da floresta, exercendo suas atividades tradicionais, com
remuneração adequada pelos serviços prestados por esse trabalho. As atividades
que atualmente batem à porta dessas populações são predominantemente ilegais e
predatórias, como a extração ilegal da madeira e o garimpo. E isso não dialoga
em nada com a conservação, e muito menos com a produção tradicional. O Origens
Brasil® nasce dessa demanda, criar um instrumento econômico capaz de valorizar
as populações, seus territórios e seus produtos.
RA - As empresas que estão aderindo ao selo, não são as
únicas que mantém contato com populações tradicionais. Quais são os critérios
pelos quais são escolhidas? 
PCG – Primeiro, empresas realmente dispostas a
estabelecer novos modelos de negócios com as populações da Amazônia, pautada no
diálogo, no respeito ao modo de vida tradicional e interessadas em construir
soluções conjuntas para os desafios encontrados. Segundo, empresas cujos
produtos tenham potencial de chegar à mesa do brasileiro para que, através do
selo, possam ter acesso às histórias associadas ao produto e conhecer o papel
que os povos tradicionais desempenham para a conservação das nossas florestas.
E a partir desses critérios identificamos empresas como a Mercur, Wickbold,
Firmenich e Pão de Açúcar, que estão demonstrando que é possível estabelecer
uma relação comercial direta com as populações, reduzindo os atravessadores e
maximizando os benefícios para estas populações.
RA - Uma das táticas desses atravessadores, na relação
com as populações tradicionais, é fomentar a divisão no interior delas.
Oferecem presentes, dinheiro.  Isso é
muito claro no caso da Eletronorte e de Belo Monte. Como você analisa isso, em
ambiente tão corroído pelo banditismo empresarial?
PCG – Ah, essa divisão está na origem da ocupação de
muitas regiões da Amazônia. Muitas famílias, como é o caso da região da Terra
do Meio, no Pará, chegaram até lá impulsionadas pelo ciclo da borracha, para
trabalhar como seringueiros. O acesso aos produtos e bens, se dava
exclusivamente por meio dos patrões e por meio de troca pela produção. Acabado
esse  ciclo , os patrões saem de cena e
estas populações ficam isoladas. E nesse cenário, o atravessador cresce e passa
a ter um papel importante, principalmente de comunicação e acesso, até porque
ele está presente onde o Estado muitas vezes não chega. Várias empresas que
consomem produtos da biodiversidade desconhecem esta realidade e ainda se
abastecem de produtos vindos destes atravessadores. O interessante é que o
Origens Brasil® está aterrissando em territórios onde já existe uma organização
estabelecida para a produção, e tem alterado a forma como os atravessadores
locais atuam, estimulando que estes aumentem os preços pagos pelos produtos na
região, caso contrário correm o risco de ficar 
sem a produção.
R.A - Esse reconhecimento permite dizer que as chances
dessas atividades comerciais se ampliarem são grandes ou para que não sejam
desvirtuadas terão um caráter minoritário, de nicho?
PCG - Nós sabíamos de antemão que o Origens Brasil® não
seria para todos os territórios. Existem alguns requisitos. É preciso que as
populações tradicionais residam em corredores de áreas protegidas, porque essas
áreas reconhecidas pelo Estado criam as condições e dão a segurança para que as
populações permaneçam nela. Depois, que exista uma organização e governança
local para a produção, essencial para que as cadeias produtivas se estruturem.
E, por fim, que estes corredores de áreas protegidas apresentem uma diversidade
sociocultural significativa, como é o caso do Xingu. Estamos fazendo o
mapeamento de até onde a iniciativa pode crescer.  Já sabemos que temos condições de ganhar
escala, sim, tem diversos territórios que reúnem essas características
principalmente na Amazônia.
RA – Essa é uma iniciativa que não é nem do governo nem
de uma empresa. É uma construção coletiva, uma junção de corpos muito
diferentes, cujo relacionamento não é tão óbvio.
PCG - O IMAFLORA acredita que iniciativas como estas só
conseguem credibilidade e se manter  no
longo prazo se o coração dela for muito bem pensado. E este coração é a
governança. A iniciativa não pode ter dono, não pode ter uma voz que se
sobreponha a outras e tem que permitir uma construção coletiva, na qual os
diferentes elos envolvidos possam ter voz, estar representados, para que possam
contribuir com a melhoria continua da iniciativa, como é o caso das populações
tradicionais, das instituições de apoio e das empresas que participam desta
governança.
RA – E como é essa estrutura de governança?
PCG - Existe um Conselho Gestor, que é formado por
instituições e pessoas, que estiveram envolvidos na criação do Origens Brasil®.
Existem os comitês territoriais, formados pelas populações e atores locais,
cujo objetivo é identificar os desafios locais para implementação e ampliação
da iniciativa em campo e ajudar a pensar soluções para sua melhoria. Existe
ainda o comitê de empresas, formado por todas as empresas que aderiram à
iniciativa, e finalmente o administrador da iniciativa, que, atualmente, é o
IMAFLORA. Existe uma expectativa destes diversos atores de que o Origens
Brasil®, através de sua governança, possa estimular a reflexão e o debate
acerca do papel das empresas nessa nova economia.
RA - Uma das características mais interessantes do
Origens Brasil® é o uso da tecnologia muito avançada  pelas populações tradicionais. Como tem sido
essa experiência?
PCG – Havia um receio inicial de como as populações
receberiam a tecnologia, se isso poderia desagregá-los, ou mesmo desvirtuar os
mais jovens com algo externo. Mas, o que estamos vendo é que a tecnologia, já
chegou até eles, só que agora está sendo usada a serviço deles, para a gestão e
valorização da sua própria produção e cultura, e que, ao contrário do que se
temia ,tem funcionado como um fator de união entre eles, estimulando a
participação e envolvimento dos jovens nas atividades produtivas e interesse em
participar da iniciativa.


Pronto pra crescer, Origens Brasil® quer estimular a reflexão sobre o papel das empresas na nova economia
Imaflora

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