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Apoio de empresas ao comércio ético e transparente com povos da floresta cresceu 69% em 2020, apesar da Pandemia

28/06/2021

Autor(a): Imaflora

Conservar a floresta é um bom negócio mesmo durante a Pandemia do novo coronavírus que  impôs distâncias físicas em função de uma crise sanitária global - e expôs povos indígenas e populações tradicionais a condições de vulnerabilidade ainda maiores. Apesar de também enfrentar a retração de grandes economias mundiais, os negócios com os povos da floresta mostraram-se resilientes e sustentáveis.

Em um ano foram comercializados R$ 2.374.480,18 milhões em produtos da floresta, revelou o último relatório da rede Origens Brasil®, uma iniciativa do Imaflora® (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) e do ISA® (Instituto Socioambiental), lançado nesta segunda-feira (28). O número de empresas-membro da rede subiu de 16 para 28 no último ano.

“Os tempos que vivemos mostram a urgência de aumentar a resiliência dos territórios e dos seres humanos que neles vivem. O sentido maior de uma rede que articula as pessoas que vivem na Floresta e da Floresta em Pé é precisamente fortalecer as relações e promover conexões que promovam prosperidade, a verdadeira prosperidade. A Rede Origens Brasil® tem proporcionado o ambiente para que este objetivo seja atingido. O caminho está pavimentado, bora continuar caminhando”, diz Isabel Garcia, conselheira da rede e gerente do Imaflora.

O relatório demonstra que a rede Origens Brasil® cresceu 69% em relação à adesão de empresas-membro que apoiam 1882 produtores, com potencial de beneficiar 12.774 representantes de 43 povos indígenas e populações tradicionais.

Entre os novos membros estão a cervejaria Colorado, a Osklen, Feira na Rosenbaum e a Bemglô. As empresas Cocar & Co,  Wickbold, Mercur, Bossapack, Manioca, Pão de Açúcar, entre outras seguem sendo parte da rede.

Desde o início da iniciativa, em 2016,  a rede apoiou a venda de mais de R$ 10 milhões de reais em produtos que ajudam na proteção de 52 milhões de hectares de floresta em pé – o equivalente à mesma área da Espanha. O volume de vendas é de mais de mil toneladas. Os principais produtos comercializados foram a proteína de pirarucu, a castanha-do-brasil, a borracha e o cumaru.

Da floresta à mesa

Os produtos relacionados à cadeia de alimentos integraram a principal pauta de comércio ético e transparente do Origens Brasil®.  A proteína do pirarucu,  o babaçu e o cumaru são alguns desses exemplos. Também foram comercializados cerveja amazônica, granola de tapioca com cumaru e castanha-do-brasil.

A rede existe para garantir rastreabilidade, transparência e comércio ético, beneficiando diretamente os povos da floresta. "Esse é um caminho para promover a segurança da origem socioambiental dos produtos. Nesse momento, somos um ato de resistência para permitir a existência.", explica Luiz Brasi, coordenador da Rede Origens Brasil®/Imaflora.

Um dos destaques de 2020 foi a chegada da produção de proteína de pirarucu - o maior peixe de escamas de água doce do mundo.  O pirarucu pode chegar a 200 quilos e até 4 metros de comprimento. A rede apoia iniciativas de manejo sustentável desta espécie símbolo da Amazônia e contribui para a conservação da diversidade socioambiental e valorização das populações tradicionais. O programa de manejo participativo acontece com o suporte do Instituto Mamirauá.  A iniciativa já é responsável, ao longo dos anos, pelo aumento de até 400% da presença da espécie nos rios e lagos do Território Solimões.

Participam da produção de proteína de pirarucu as populações ribeirinhas das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Amanã e Mamirauá, no Solimões. A comercialização é de responsabilidade da nova empresa-membro da rede Origens Brasil®, a Cocar & Co.

Em 2020,  a empresa adquiriu 11.315,2 kg de pirarucu manejado. Esta relação comercial direta e ética, contribui para a manutenção de mais de 5,5 milhões de hectares de floresta em pé.

Baunilha da Amazônia

Quatorze instituições de apoio de dez áreas protegidas são responsáveis pela produção de cumaru. As sementes têm perfume e aroma semelhantes ao da baunilha, amêndoa, cravo e canela. O cumaru tem uso para criação de aromas e fragrância. As sementes são produzidas em áreas quilombolas e extrativistas no Território Calha Norte da rede Origens Brasil®, no Pará.

Outra novidade da rede é o cogumelo produzido pelo povo Yanomami. O produto é fruto de parceiras com povos indígenas da bacia do Rio Negro e antes de ser integrado a Origens Brasil¸ era desconhecido de grande parte do país.  É o primeiro cogumelo nativo da Floresta Amazônica colocado no mercado brasileiro.

“Essas parcerias comerciais e institucionais têm sido importantes para darmos visibilidade ao nosso conhecimento, a nossa maneira de ser, a nossa forma de pensar”, explica André Baniwa, da Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI), produtos do cogumelo.

A promoção da paridade de gênero nas relações comerciais com povos da floresta foi outro ponto evidenciada no relatório 2020. As mulheres do Território  Xingu representam 55% das iniciativas de comércio no último ano. No Rio Negro, elas também dominaram as iniciativas com 54% de participação frente a 46%.

Essas atividades também ajudam na conservação da Amazônia e seu patrimônio cultural.  “É da nossa cultura cuidar da floresta. Isso vem dos nossos antepassados que já sabiam que a floresta é nosso bem mais precioso. Ela é nossa farmácia, nosso mercado, o nosso sustento. O extrativismo dos produtos da floresta é parte da cultura do meu povo quilombola”, diz Maria Daiana, moradora do Último Quilombo,  em Oriximiná, Pará.

Pandemia e encontro

A conexão entre povos da floresta e empresas também foi positiva para se construir iniciativas de apoio ao enfrentamento do novo coronavírus. A captação para ação emergencial COVID-19 beneficiou mais de 2.000 famílias na região da Terra do Meio (Xingu) e Oriximiná, (Calha Norte), ambos no Pará.

A Pandemia modificou as formas de engajamento da rede. O  último encontro anual Origens Brasil® aconteceu em formato virtual. Durante dois dias cerca de 150 pessoas discutiram o contexto da Amazônia e seu impacto para os povos e negócios da floresta. Também foram debatidos a comunicação em rede, mercado ético e ações prioritárias para  2021. Uma das novidades do ano será a expansão para um quinto território de atuação da rede.

“É muito bom poder se sentir em um grupo de mais de cem pessoas que comunga com a visão da importância das florestas e comunidades tradicionais nesse manejo", afirmou durante o encontro Adriana Ramos,  assessora do Instituto Socioambiental (ISA).

"Foi um ano que impôs distâncias físicas em função de uma crise sanitária global - e que expôs povos indígenas e populações tradicionais a condições de vulnerabilidade ainda maiores - fomos desafiados a buscar novas formas de continuarmos próximos e atuar pela conservação da Amazônia e pela valorização de seus povos", afirmou Patrícia Gomes,  gestora Origens Brasil® e secretaria executiva adjunta do Imaflora.

Origens Brasil

O Origens Brasil® é uma rede que conecta empresas a cadeias produtivas sustentáveis em áreas prioritárias de conservação na Amazônia, gerando valor para os povos indígenas e populações tradicionais que vivem da floresta - os verdadeiros guardiões do nosso patrimônio socioambiental. O Origens Brasil® viabiliza negócios em prol da floresta em pé com garantia de origem, rastreabilidade, transparência e promovendo comércio ético.

A rede é formada por 28 empresas, 1879 produtores e 45 organizações locais e instituições de apoio. As iniciativas contribuem para manter mais de 52 milhões de hectares de floresta em pé. A rede surgiu em 2016 a partir de uma iniciativa entre produtores da floresta,  o Imaflora® (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) e o ISA® (Instituto Socioambiental) com o objetivo de mobilizar organizações que atuam nos territórios, comunidades e empresas em torno da viabilização de negócios em prol da floresta em pé com garantia de origem, rastreabilidade, transparência e promovendo comércio ético.

Saiba mais: www.origensbrasil.org.br  e  [email protected] .

FOTO: Simone Giovine / AFP