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Com
apoio do Imaflora, cadeia produtiva do óleo usado na indústria de cosméticos e
fármacos forma base para a economia da floresta
Houve um tempo na
região de Oriximiná, na Calha Norte do rio Amazonas, no Oeste do Pará, em que o
óleo de copaíba, um dos mais apreciados ingredientes pela indústria de aromas e
cosméticos era apenas moeda de troca que as comunidades extrativistas
quilombolas da região usavam para trocar por óleo diesel ou mantimentos. Quase
sempre por meio de atravessadores, chamados regionalmente de regatões. Eles
recolhiam o óleo e deixavam o combustível e a comida. Era assim a relação de
comércio entre a comunidade e o “mundo lá fora”.
Isolados no interior
da floresta, acessíveis apenas após longas horas de barco, desarticulados
socialmente para o comércio, os quilombolas de Oriximiná viviam relações
comerciais que os colocavam quase que na condição de escravos. Quando chegavam
a vender o precioso óleo, o preço era estipulado pelo comprador, que pagava o
que queria. Sempre menos do que valia o óleo. Nada justo, portanto. O jovem da
comunidade crescia e a última coisa que pensava era em seguir extraindo óleo,
como faziam seus pais, avós...
Mas há pouco mais de um
ano essa situação começou a mudar. Com o apoio de algumas organizações que têm
como objetivo ajudar a conservar as florestas nativas da região, os quilombolas
começaram a se organizar para comercialização coletiva. Existia uma
cooperativa, mas estava desarticulada  e
que nunca havia trabalhado com comercialização de óleos.
Foi preciso retomar o
trabalho, organizar a produção. “Nem todos acreditaram. Mesmo assim fomos
adiante”, lembra o biólogo Léo Ferreira, ligado ao projeto Florestas de Valor,
do IMAFLORA – Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola,
localizado em Piracicaba (SP). Segundo Ferreira, a meta da era fortalecer o
extrativismo e fazer a conexão com o mercado. Mas em novas bases.
Na floresta, os
extrativistas funcionam como fiscais da natureza. Como têm uma relação secular
com a mata e dependem dela para viver, eles expulsam grileiros, madeireiros e
garimpeiros ilegais. Eles também detém formas tradicionais de explorar os
recursos da floresta sem destruir a mata. Isso faz deles importantes agentes na
tarefa de manter a floresta em pé. No caso dos quilombolas parte de suas terras
são reconhecidas oficialmente e o uso é um direito de que eles podem dispor.
Com toda a riqueza natural ao redor e o conhecimento para usar de modo sustentável,
os quilombolas de Oriximiná precisavam apenas de mecanismos que os remunerassem
melhor.
“Em 2012, começamos a
discutir com eles os princípios de uma comercialização ética. Fomos ouvi-los
para saber o que eles consideravam justo e essencial numa relação de comércio”,
lembra o especialista do IMAFLORA. “Começamos nosso exercício com a
castanha-do-Brasil, que é abundante na região, e depois seguimos com o óleo de
copaíba, cuja extração eles conhecem há várias gerações”.
Os quilombolas têm
formas tradicionais de extrair a copaíba, conhecem as áreas na palma da mão e
precisavam apenas de orientações sobre como manejar e garantir uma produção de
qualidade. Quando essa parte do trabalho estava de pé, foi a hora de bater à
porta das indústrias.
E foram várias as
portas. Até que uma delas se abriu. Uma empresa suíça ligada ao ramo da
perfumaria e disposta a suavizar sua pegada ecológica foi a escolha mais
acertada. A empresa Firmenich, uma das maiores do mundo no mercado de
fragrâncias e sabores aceitou o desafio de se embrenhar na Amazônia e ir
discutir com os quilombolas um acordo de compra e venda de copaíba.
Foi uma experiência
nova para ambos os lados. O executivo da empresa, sentado sob as árvores da
comunidade, ouvindo dos quilombolas o que eles achavam justo para entregar o
óleo. A empresa explicava o que era importante para ela: qualidade,
regularidade na entrega e a certeza de estar contribuindo para conservar a
floresta.
“Com isso, nós temos
controle da nossa cadeia produtiva, sabemos que a matéria prima que compramos
está melhorando a vida da comunidade, mantendo de pé a floresta e garantindo
nosso negócio. E o nosso cliente é informado sobre isso”,   destaca André Tabanez, gerente de Projetos
da Firmenich.
Ele lembra que, ao
trabalhar dentro dos critérios e exigências técnicas de uma empresa
multinacional, a comunidade está sendo preparada para o mercado. “Hoje a
comunidade pode negociar com qualquer grande empresa do mundo, pois sabe como
negociar, coletar, armazenar e entregar o produto como exigem os grandes
clientes. Isso faz parte do legado intangível que deixamos para eles”.
No primeiro ano de
vigência do acordo, somente as comunidades ligadas ao projeto Florestas de
Valor conseguiram entregar 2, 5 mil litros de óleo de copaíba para a empresa.
Tudo coletado no sistema coletivo, dentro da estrutura desenhada com a ajuda
dos técnicos. Um sistema de amostragem registra a procedência de cada porção de
óleo, de modo a garantir a qualidade e corrigir possíveis contaminações.

Com isso, o preço do litro do óleo de copaíba
saltou cerca de 90% a mais que o mercado local costumava pagar. “Hoje até os
atravessadores que ainda atuam na região têm de adequar ao novo preço”,
comemora Léo. “E a indústria está aberta a receber mais e mais óleo vindo da
floresta”, anima-se.
O desafio do projeto,
segundo ele, é identificar novas áreas de extração do óleo de copaíba, bem como
novos produtos e mais ainda: levar a tecnologia do manejo e os protocolos de
comercialização ética para outras comunidades na Calha Norte, que provavelmente
neste momento estejam trocando copaíba por combustível.
Trama de apoios

O IMAFLORA atua na
região desde 2006, Durante esse período contou com diferentes fontes de recurso
para viabilizar as ações junto as comunidades. Desde 2013, o projeto conta com
patrocínio da Petrobras e participa do Programa Petrobras Socioambiental, um
dos instrumentos da política de responsabilidade social da companhia. “Tivemos
de fazer um tecido interinstitucional para viabilizar o projeto e os resultados
devem ser creditados a todos os apoiadores. E esta é uma lição que aprendemos:
somente unindo as forças é que poderemos manter a floresta em pé”.


Quilombolas de Oriximiná abrem mercado internacional para o óleo de copaíba
Imaflora

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