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Temporada do Guaraná no Amazonas

22/03/2021

Autor(a): Imaflora

Por Giulia Andrich e Philippe Schmal*

O guaraná é uma planta nativa da floresta amazônica, arbustiva quando cultivada em campo aberto e famosa por seus olhos, carregados de muita cafeína, lendas e mitos. Utilizada como bebida e medicamento, utilizada pelos índios sataré-mawé, conhecidos por serem os “filhos do guaraná”, mito contado através das gerações de uma índia que ao ter um filho com uma cobra, foi expulsa de sua aldeia. Ao assassinarem seu menino, enterrou os olhos da criança e deles cresceu o guaraná embaixo do pé, dias depois, nasceu um menino, o filho do guaraná. A etnia é pioneira no beneficiamento, muito antes dos europeus chegarem à região de Maués, no médio Amazonas.

No decorrer do último século, o fortalecimento da cadeia produtiva do guaraná foi fundamental para atender a crescente demanda do mercado consumidor, especialmente de refrigerantes. Assim, o Programa Olhos da Floresta, parceria entre a Coca-Cola Brasil e o Imaflora, começou em 2016 com o principal objetivo de implantar Sistemas Agroflorestais com guaraná na área de Presidente Figueiredo e outra parte é estruturar uma rastreabilidade que afere guaraná 100% do estado do Amazonas e oriundo da agricultura familiar. O programa conta com um rigoroso sistema de rastreabilidade garantido através do acompanhamento de assistentes técnicos a promoção das boas práticas de agricultura sustentável, o fortalecimento da agricultura familiar e das Associações e Cooperativas, meio o qual é comercializado o guaraná. Até 2020, o programa esteve presente em 14 municípios, em mais de 100 comunidades, envolvendo mais de 300 famílias, possibilitando que mais de 3000 pessoas fossem beneficiadas pelos elos da cadeia no estado do Amazonas.

A rastreabilidade é uma etapa fundamental para garantir não só a qualidade, mas a origem do matéria-prima. O sistema é capaz de verificar os volumes produzidos, a qualidade das sementes torradas e controlar o embarque.

A temporada de embarques, momento em que o guaraná já torrado é enviado para Manaus, conta com uma logística intensa, pois muitas vezes para o transporte é necessário à utilização de barcos, balsas e caminhões na temporada de chuvas na Amazônia. Para que tudo funcione, capacitações são realizadas durante o ano. Em 2020, ano atípico mundialmente por conta da pandemia do coronavírus, o transporte contou com diversas adaptações para que a safra pudesse, com qualidade, ser entregue à Coca-Cola Brasil, com a segurança de todos os colaboradores. Alguns ajustes foram necessários, como treinamentos virtuais e acompanhamentos a distância. O embarque não foi diferente, alguns municípios contaram com a inspeção presencial tomando os devidos cuidados e outros de forma virtual.

O primeiro município a realizar o embarque, em janeiro de 2021, foi Maués, a “Capital do Guaraná”. A Associação de Produtores Agroextrativistas da Floresta Estadual de Maués (Aspafemp), representada pela produtora e presidente Dona Tânia, como gosta de ser chamada, liderança feminina na região, entregou cinco toneladas de guaraná torrado da safra 2020. O segundo embarque presencial realizado foi na região do arco do desmatamento da Amazônia, nas cidades de Apuí e Nova Aripuanã. A importância do fortalecimento da agricultura familiar é capaz de garantir a preservação da floresta, assim, a Associação dos Produtores Rurais de Guaraná Sustentável (Asprog) entregou nesse ano 28 toneladas de guaraná torrado, fruto da persistência e permanência no campo. Em decorrência da crise sanitária vivida pelo estado do Amazonas, os embarques seguintes ao “toque de recolher” foram todos de forma virtual, contando com um rigoroso acompanhamento e assistência na logística.

Mesmo com todas as adversidades, a agricultura familiar está cada vez mais fortalecida, garantindo um guaraná sustentável e de qualidade, pronta para mais uma temporada de produção.

Uma parceria entre Coca Cola Brasil e Imaflora, o programa Olhos da Floresta apoia a rastreabilidade do guaraná produzido por 09 cooperativas e associações, entre elas: A|GROFRUT, AGRIGUANARI e COOMAPEM, envolvendo mais de 3000 produtores anualmente.

Referência: “Saberes e Fazeres: O Guaraná de Maués” – Museu da Pessoa

*Giulia Andrich é formanda em eng. Agronômica e trainee do Imaflora

*Philippe Schmal – engenheiro florestal e coordenador de projetos do Imaflora